PAIdêmico quarentão na quarentena

*Por Miguel Nunes


No final do ano passado, me descobri pai com a confirmação dos dois testes de gravidez da minha esposa, Mariana. Eu já tinha passado do ponto dos 40 anos e achei que já não seria pai. Quis muito desde os 26-27 anos e até os 38-39 anos, quando fui desligado do meu último emprego formal. Dizem que “pai pode ser com qualquer idade, a mulher é que tem um prazo”, mas eu não queria ser pai “velho”, ainda mais após uma prótese no quadril direito. Queria poder brincar e fazer todas as estripulias com o filho.

Em todo caso, e mesmo com esse meu “drama”, não demonstrei insegurança ou medo à futura mãe. A gravidez fluiu com enjôos da esposa, e nada pude fazer para ajudá-la, sequer segurar o cabelo, pois a Mariana (mãe) tinha cabelo curto. Fizemos surpresas, revelando a gravidez aos amigos, tão logo passaram os tais três meses, no dia do meu aniversário. No dia de Natal, revelamos para a minha família, que mora em Vitória, e  logo na sequência, para a família da Mariana, em Porto Alegre.  Nesse último, fizemos ainda o chá revelação do sexo do bebê. Um menino!

Já de volta no Rio de Janeiro, em 2020, alguns presságios de uma gravidez complicada, não fisiologicamente. Foi incêndio na Amazônia, manchas de petróleo nas praias, água contaminada na cidade, asteroide passou perto do planeta, dólar batendo quase os seis reais, e o mais derradeiro, o novo coronavírus. E, como está em voga, é precaução daqui, desinformação de lá, muita fake news, cancela viagem do chá de fraldas, que seria no sul, não faz treinamento de pais, Mariana não fez as aulas de ioga, sem sessões com doula/enfermeira, e Mariana, que atua na área da saúde, trabalhava 12-16 horas por dia. Nos adaptamos. Decoramos o quarto do bebê pela internet. Virei " faz-tudo", preparando a comida, cuidando de afazeres doméstico, fazendo trading no mercado de ações e fazendo compras online e na rua. Fizemos chá de fraldas online, com até 28 câmeras simultaneamente e mais de 50 pessoas participando.

Recebemos carinho a torto e a direito e foi gratificante demais.  E ainda, para trazer um pouco de leveza ao novo cotidiano, criei um Instagram, @antespaidoquenunca, para colocar em prática algo que curtia: escrever com uma ponta de humor. Insegurança, medo e ansiedade caminharam conosco nesse período. Até que, com 41 semanas e dois dias, e sem sinais de algum movimento do parto natural, foi feita indução. Nada acontecia apesar do procedimento e, depois de longas horas de espera, o obstetra e a mãe concordaram com a cesárea. E, dia 2 de julho, Bento nasceu. Um meninão de 51 cm e 4,230kg, bem cabeludo, e que me fez chorar inúmeras vezes em dois dias mais do que chorei em duas décadas. E, assim, senti a mistura de emoções do amor incondicional. Os dias não são tão fáceis sem o suporte de terceiros - família, amiga ou profissionais. Levamos os dias entre consultas e casa. Bento andou mais de Uber que muita gente. Sol e vitamina D pegamos na janela da sala. Meus pais, avós de primeira viagem, ansiosos em conhecer o neto, ligam todo dia. A gente apenas torce para o fim da quarentena, mesmo afrouxada no Rio não nos aventuramos. Sentimos pelo novo normal, que será apenas normal para o Bento. Em todo caso,  o maior bem da pandemia é poder passar todos os momentos juntos no amor que nutre a nossa recém-formada família.


*Miguel Nunes nasceu em 1975, no Zimbábue , e imigrou devido à guerra civil em Moçambique para o Brasil ainda com meses. Morou em diversas cidades entre Itajaí, Curitiba, Vitória, Belém, Porto Alegre e hoje no Rio de Janeiro. Formado em Design Gráfico, pós em Marketing e Executivo em Óleo e Gás. Trabalhou na área de óleo gás por mais de 15 anos. Hoje é confeiteiro, dono de casa, investidor e trader. Criou @antespaidoquenunca no Instagram onde escreve sobre suas descobertas como pai.



Quadragenarian Quaratened Fatherhood

*By Miguel Nunes


At the end of last year, I found out that I would be a father with two confirmed  pregnancy tests of my wife, Mariana. I was over 40 years old and even though we weren’t trying, I thought I would no longer be a father. I had wished  so  since I was 26-27 years old and up to 38-39 years old, when I was dismissed from my last formal job. People say that "a father can be one at any age, but a woman has a deadline". Thing is that I did not want to be an "old" father even more after a prosthesis in the right hip. I wanted to be able to play and do all the pranks with my son.

In any case and even with my “drama” I did not show any insecurity or fear towards the mom-to-be. The pregnancy went well even with the first three months of her nausea, and I could do nothing to help her, not even holding her hair, as Mariana (mother) had short hair. We made surprises by revealing the pregnancy with friends as soon as those three months passed on my birthday. More surprises as revealed on Christmas Day to my family, who live in Vitória and then in Porto Alegre. In the latter, we also made the baby's gender reveal tea. A boy!

Back in Rio de Janeiro in 2020, there were some omens of a complicated pregnancy, but not physiologically. There was fire in the Amazon, oil stains on the beaches, contaminated water in the city, an asteroid passed close to Earth, the dollar exchange rate was almost six reais, and the most significant coronavirus. With this situation we had to precaution, deal with misinformation, a lot of fake news, cancelled the baby shower trip that would be in the south, no father-mother pregnancy training, Mariana did not take yoga classes, no sessions with doula / nurse and Mariana, who works in the health, worked 12-16 hours a day.

We adapt. We decorated the baby's room online. I would do everything from food preparation, household chores, trading in the stock market and shopping online and on the street. We had an online baby shower with up to 28 cameras simultaneously, but there were over 50 people. We received affection from all sides and it was soooo rewarding. To bring a little lightness to the new daily routine, I created an Instagram, @antespaidoquenunca, to put into practice something I enjoyed that was writing with a touch of humor.

Insecurity, fear and anxiety sided us during this period. Until 41 weeks and two days and with no signs of any natural birth movement, induction was performed. Nothing happened with the procedure and after a long time waiting the obstetrician and mother agreed with the cesarean. So on July 2, Bento was born. A 51 cm and 4,230 kg big boy, nice and hairy, and who made me cry countless times in two days more than I cried in two decades. And, so I felt the mixed emotions of what is unconditional love.

Days are not that easy without family, friends or professionals. We live days between consultations and home. Bento rode Uber more than a lot of people. Sun and vitamin D we get our share a time of day in the sitting room. My parents, first-time grandparents, are eager to meet their grandson and so they call every day. We just hope for the end of the quarantine, even with flexibilization in Rio we do not venture unnecessary outings. We feel  sorry for the new normal, which will be just “normal” for Bento. Anyway the greatest good of the pandemic is being able to spend all moments together in the love that nourishes our newly formed family.


*Miguel Nunes, born in 1975 in Zimbabwe, immigrated to Brazil months old due to civil war in Mozambique. Lived in several cities between Itajai, Curitiba, Vitória, Belém, Porto Alegre and currently living in Rio de Janeiro. Graduated in Graphic Design, Marketing and Executive in Oil and Gas. He worked in the oil and gas field for over 15 years. Has become a father after 40, confectioner, househusband, investor and trader. Created @antespaidoquenunca on Instagram, where he writes as a kind of blogger about discovering what it is to be a father or who he will be as a father.


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